Alheira de Mirandela
Enchido criado pelos judeus convertidos no séc. XV: para enganar a Inquisição (não comiam porco), inventaram um enchido com pão, carne de aves e caça, alho, azeite. Hoje é símbolo nacional. IGP.
"Para lá das montanhas". A terra dos caretos, dos pauliteiros, das alheiras, dos lobos que ainda existem. O Portugal mais profundo, mais antigo, mais nosso.
Trás-os-Montes não é um destino, é uma confissão. Aqui falam-se três línguas (português, mirandês — segundo idioma oficial do país — e galego), comem-se cerca de duas dezenas de pratos diferentes de porco, e há aldeias onde os homens ainda usam máscaras de madeira no Carnaval para afugentar maus espíritos.
É longe — 220 km do Porto. Sai-se cedo, volta-se tarde. Compensa-se com paisagens que se vêem uma vez na vida e histórias que não se contam noutro lado.
Saída cedo pela A4. ≈ 2h30 até Bragança. Café a meio do caminho.
Palácio barroco do séc. XVIII (família Mateus, antigos Morgados). Os jardins, a fachada de Nasoni, e o vinho rosé que tornou esta casa mundialmente famosa. Entrada à parte.
Pausa em Mirandela ou na aldeia museológica de Romeu (centro de etnografia transmontana). Tradicional alheira fumada.
Castelo do séc. XII reconstruído por D. Sancho I, torre de menagem de 33m. Domus Municipalis: edifício civil românico (séc. XII) único na Europa — assembleia comunal medieval, ainda preservada.
Posta mirandesa de raça autóctone, alheira grelhada, butelo com cascas (Inverno), feijoada à transmontana. Vinho do Planalto Mirandês.
Em Bragança. Caretos, chocalheiros, pauliteiros, máscaras de madeira do Carnaval rural — o pré-cristão que sobreviveu.
74 mil hectares, das maiores áreas protegidas do país. Lobos ibéricos (raros mas existentes), corços, javalis, abutres. Aldeias xistosas e graníticas escondidas nas curvas da serra.
Uma das aldeias mais extraordinárias da Europa: metade portuguesa, metade espanhola, com o povo a partilhar pastos, moinhos, forno comunal, e uma língua mista (rionorês). Os homens ainda decidem assuntos da aldeia em assembleia ao Domingo, segundo as Leis e Pôsturas escritas no séc. XIV.
Chegada estimada às 21:30. Conduzimos descansados.
No Carnaval, em Podence (Macedo de Cavaleiros), os caretos saem à rua: jovens mascarados em fatos coloridos com franjas (capa, vermelho, amarelo), com máscaras de latão demoníaco. Saltam, gritam, "chocalham" raparigas solteiras na rua. É Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2019.
Em Miranda do Douro, fala-se mirandês, segundo idioma oficial de Portugal desde 1999. É uma língua asturo-leonesa, irmã do leonês de Castela e León. Os pauliteiros de Miranda dançam ao som da gaita-de-fole com paus de marmeleiro, em coreografia ancestral. Os burros mirandeses (raça autóctone) e a raça bovina mirandesa ambas têm DOP.
Enchido criado pelos judeus convertidos no séc. XV: para enganar a Inquisição (não comiam porco), inventaram um enchido com pão, carne de aves e caça, alho, azeite. Hoje é símbolo nacional. IGP.
Bife alto da raça mirandesa, grelhado em brasa. Carne de animais que pastam livres no planalto. DOP.
Enchido fumado de carne e ossos, cozido com couves, cascas (vagens secas), batata. Prato de Inverno. Da Terra Fria, o frio dos sete meses sem feijão.